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Uma hipótese

A alegria é um catalisador de uma experiência científica; a tristeza, um inibidor.A tristeza encolhe; como pode um homem triste descobrir algo?Só quem é alegre arrisca.A tristeza é anticientífica.
Gonçalo M. Tavares em Breves Notas sobre Ciência 
Desculpem-me a "inundação" Tavariana, mas este é, sem dúvida, um dos grandes escritores portugueses e este Breves Notas sobre Ciência é absolutamente delicioso e indispensável a quem procura investigar como forma de vida...
Breves notas sobre a ciência...

Tédio e conclusõesÉ o tédio. Ou então, o outro elemento. Jorge Luís Borges afirmou que só se considera um texto literário terminado e definitivo por duas ordens de razões: cansaço ou fé religiosa. Assim também nas experiências científicas.
Gonçalo M. Tavares
O medo


Um homem que tinha muito medo de todos os animais que rastejavam, decidiu (por fim) ir viver para uma montanha muito alta.

Gonçalo M. Tavares, em O Senhor Brecht
Poesia

Apetece-me poesia.
Trincar palavras.
Inspirar exclamações.
Libertar vírgulas e pontos finais.

Apetecem-me reticências.
Frases que não rimam.
Metáforas inalcançáveis.
Amores sofridos.

Apetecem-me mentiras.
Linhas faz-de-conta.
Palavras sinónimas.
Sonetos desengonçados.

Apetece-me baloiçar.
Letras espalhadas ao vento.
Sentimentos que fingem que são.
Querer ser verdadeiro.

Apetece-me imaginar.
Fugir do mundo.
Cavalgar versos.
Escrever quadras falsas.
Forçar o sentir.
Acreditar de novo.
Que me apetece poesia.

Jardim
Gatos. Gatos bonitos. Anafados. Pêlo brilhante. Olhos fixos. Cinza, preto, branco, malhado.
E pássaros. Melros, piscos. Esventrados. Decapitados. Mortos. Sem penas. Sem pio. Bicos laranja numa mancha assimétrica de preto e vermelho.
Um rato. Grande, cinzento, imundo. Jaz no alcatrão e funde-se já com ele. Como um desenho de linhas. Um contorno. Como algo que nunca foi. Como uma representação de nada. Uma coisa inexistente.
Árvore. E árvores. Uma árvore só. Altiva. longe do chão. Afastada da vida. Dos animais. Das intenções. Das tentativas. Do mundo real. Uma árvore. Que vive de pé. Chuva de pétalas. Rosa e branco sobre o jardim. Rosa e branco sobre os gatos, os pássaros, o rato. Manto de branco e rosa. De beleza, de não-vida, de altivez, de distância, de magia, de encobrimento, de sonho. De vazio. De nada.
A minha rua
A minha rua é feita de nada. Candeeiros escuros. Casas fantasma. Ar rarefeito.
A minha rua é plena de vazio. Passeios desertos. Árvores ocas. Céu silencioso.
A minha rua é debruada a morte. Frutos caídos. Cães inexistentes. Lixo putrefacto.
A minha rua é imune à esperança. Quintais estéreis. Alcatrão latejante. Persianas corridas.
Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã... Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, E assim será possível; mas hoje não... Não, hoje nada; hoje não posso.A persistência confusa da minha subjetividade objetiva, O sono da minha vida real, intercalado, O cansaço antecipado e infinito, Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico... Esta espécie de alma...Só depois de amanhã... Hoje quero preparar-me, Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte... Ele é que é decisivo. Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos... Amanhã é o dia dos planos. Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo; Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã... Tenho vontade de chorar, Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo. Só depois de amanhã... Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana. Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância... Depois de a…