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O tempo O tempo existe, é real, é presente, é agora, é já! O tempo é vivo, é móbil, é estranho, é só! O tempo corre em horas mortas, tenebrosas, perde-se em horas vivas, alegres, encontra-se em horas plácidas, estáticas. Descansa ao pôr do sol, quebra-se na luz, sorri na penumbra, diverte-se na noite. O tempo é criança, é adulto, é idoso... Existe aqui, ali, além. Acompanha-nos, persegue-nos, foge-nos. O tempo acredita-nos, ilumina-nos... Traz tudo, vive em tudo, é cada coisa, cada palavra, cada imagem! O tempo vagueia perdido pelas ruas da memória. Brinca com a vida, joga com os sonhos, rouba-nos o sono e presenteia-nos com a esperança. Hoje descobri: afinal o tempo existe, afinal é real.
Sobre um Poema Um poema cresce inseguramente na confusão da carne, sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto, talvez como sangue ou sombra de sangue pelos canais do ser. Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência ou os bagos de uva de onde nascem as raízes minúsculas do sol. Fora, os corpos genuínos e inalteráveis do nosso amor, os rios, a grande paz exterior das coisas, as folhas dormindo o silêncio, as sementes à beira do vento, - a hora teatral da posse. E o poema cresce tomando tudo em seu regaço. E já nenhum poder destrói o poema. Insustentável, único, invade as órbitas, a face amorfa das paredes, a miséria dos minutos, a força sustida das coisas, a redonda e livre harmonia do mundo. - Em baixo o instrumento perplexo ignora a espinha do mistério. - E o poema faz-se contra o tempo e a carne. Herberto Helder
A que passa. Que se abram os chãos e se afastem os vermes porque ela passa. Ela passa porquê? Porque passa ela no tapete conformado da natureza? Ela passa porque vai. Passa mas não regressa. Ela passa porque é nossa, é de todos princípio, meio e finda. (A poesia não tem de ser bela por dizer coisas belas, a poesia é bela por ter significados. Um grande beijo, Jack * Elo. )
Abri o baú das palavras escritas no passado... Uma dor, dor de nada. Absurda, ridícula, irracional, inexplicável dor de nada! A rendiçăo... Passa suavemente as măos pelo teclado frio e começa a escrever. Palavras soltas, rimas trocadas, prosas incertas, sequęncias racionais de pensamentos sentidos na alma! Eis o final – mais uma sequęncia ilógica e desagrupada de poemas da madrugada. Um novo cigarro e de novo a brisa gélida da madrugada de Dezembro...
Way to blue... "Tell me all that you may know Show me what you have to show Won't you come and say If you know the way to blue?" Mais uma vez perdida nas músicas de Nick Drake...
Para ser grande Para ser grande, sę inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sę todo em cada coisa. Pőe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a Lua toda brilha, porque alta vive. Ricardo Reis
Para ti... "Please tell me your second name Please play me your second game I've fallen so far For the people you are I just need your star for a day." Um pouco da música Fly do Nick Drake...
Poeta DA Rua (assim com maiúsculas e tudo) Sebastiăo Alba, poeta andarilho , nascido a 11 de Março de 1940, viveu os últimos anos na rua por opcçăo. Por companhia os poemas, o tabaco, o álcool e os inúmeros seguidores da obra... Um dia, saindo eu da escola falou comigo. Năo me recordo exactamente o que me disse, mas era certamente poesia - sempre foi esse o mote nas raras vezes em que a ele a mim se dirigia. Na manhă 14 de Outubro de 2000, foi atropelado mortalmente por um condutor que se pôs em fuga, em Braga. A 7 de Outubro, num bilhete quase premonitório ao amigo Vergílio Alberto Vieira escrevia: «Se um dia encontrarem morto "o teu irmăo Dinis", o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia năo entenderá.» Sebastiăo Alba 11.03.1940 a 14.10.2000 há poetas com musa. Muitos. Há poetas com musa. Muitos. Eu, neste jardim do Éden, a cargo do município, onde um velho destece a sua vida e, baixand...
O amanhă... "Foi nessa tarde que aconteceu ter-me percebido no futuro. Tinha a idade dos pássaros nos dias de poesia, tinha a noite arrumada em personagens incertas. Cuidava dos perigos com carinho, lavado e de barba feita. Viajante de mim." Fica aqui este excerto de um texto de Miguel Duarte Soares , enquanto procuro perceber-me a mim, no futuro...
Fim de Poema Para que nem tudo vos seja sonegado, cultivai a surdina. Eu fico em surdina. Em surdina aparo os utensílios, em surdina me preparo para morrer. Amo, chut!, em surdina; a minha vida, nesga entre dois ponteiros, fecha-se em surdina. Sebastiăo Alba
Percalços... Tenho uma consulta marcada para as 16:30... Eu: transparente. Ela: olhos fixos num ponto qualquer para além de mim. Tem que esperar. A doutora chegou tarde. Nem mais. Chegou tarde. Eu espero. Eu, transparente, invisível... espero. Pela doutora que chegou tarde. Mais um impasse na minha vida, mais minutos perdidos, desperdiçados... quem sabe se serăo antes horas? Horas que poderiam ser úteis, poderiam fazer falta, poderiam ser minhas! Mas năo. Espero. Săo horas da doutora. Chegou tarde. Tem que esperar. Năo podemos fazer nada. Espero. Desespero. Desperto e nada. Vazio... Só a espera e eu. A sala cheia de gente e eu. Como eu, a esperar. Sem mais. Espera, insiste, acredita. Chegou tarde. Percalços no caminho. Esperas na estrada. E eu, transparente, espero.
Arte Poética 1. Chega a măo a escrever negro chega onde escreve chega onde chega a escrever năo 2. Chega ou năo a escrever năo chega onde chega escreve onde a negro escreve a măo 3. Chega em văo a escrever negro escreve onde chega quando escreve escreve năo 4. Chega entăo a escrever năo chega negro a escrever măo escreve escreve escreva ou năo. de Vergílio Alberto Vieira, em "O voo da serpente"... a năo perder...
Tempo "O tempo vai aproximando as coisas. Olho para uma árvore. É um álamo, a bétula onde procuro o princípio da floresta... Năo importa! A esta hora inicio a cor e o silęncio da terra. A música năo difere muito do que do que ando a ver. O dia parece ter pressa, mas a luz năo incomoda. Uma floresta inicial lembra o sistema do universo. As leis convergem no império das cores. É lento o castanho, o ocre, o anil. A folha dá sinal. Vai cair. Quem vem demorar o seu olhar?" de José Miguel Braga, o meu mestre...
Chuva As coisas vulgares que há na vida não deixam saudade Só as lembranças que doem ou fazem sorrir Há gente que fica na história na história da gente E outras de quem nem o nome lembramos ouvir São emoções que dão vida à saudade que trago Aquelas que tive contigo e acabei por perder Há dias que marcam a alma e a vida da gente e aquele em que tu me deixaste não posso esquecer A chuva molhava-me o rosto gelado e cansado As ruas que a cidade tinha já eu percorrera Ai... o meu choro de moça perdida gritava à cidade Que o fogo do amor sob a chuva há instantes morrera A chuva ouviu e calou o meu segredo à cidade E eis que ela bate no vidro trazendo a saudade A chuva molhava-me o rosto gelado e cansado As ruas que a cidade tinha já eu percorrera Ai... o meu choro de moça perdida gritava à cidade Que o fogo do amor sob a chuva há instantes morrera A chuva ouviu e calo...
Alguém se lembra? I'll now read the traditional opening message by society member Henry David Thoreau: "I went to the woods because I wanted to live deliberately. I wanted to live deep and suck out all the marrow of life. To put to rout all that was not life, and not, when I had come to die, discover that I had not lived." Carpe, carpe diem, seize the day boys, make your lives extraordinary.
Intocável Choro. Perdi-me de ti. Perdi-me do mundo. Perdi-me de mim. Hoje as cores săo diferentes, a rua é diferente. Todo o mundo mudou. Penso. Repenso. Medito. Choro. Sem lágrimas. Sem sal. Choro. Năo sei onde estou. A vida é algo para além de mim. Para além de nós. Intocável.
"Se podes olhar, vę. Se podes ver, repara." "Os que encontram significaçőes torpes nas coisas belas săo corruptos e sem seduçăo, o que é um defeito. Os que encontram significaçőes belas nas coisas belas săo os cultos. Para esses há esperança. Eleitos săo aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza." Oscar Wilde in "O Retrato de Dorian Gray"
Gritos mudos... (Retirado d'a caixa-de-chocolate da BuBbLeS )