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O Deus das Pequenas Coisas As pessoas habituaram-se a vę-lo na estrada. Um homem bem vestido caminhando calado. A sua face tornou-se tisnada. Áspera. Enrugada pelo sol. Começou a parecer mais sábio do que realmente era. Como um pescador na cidade. Com segredos marinhos dentro de si. Arundhati Roy
Receita para fazer um herói Tome-se um homem, Feito de nada, como nós, E em tamanho natural. Embeba-se-lhe a carne, Lentamente, Duma certeza aguda, irracional, Intensa como o ódio ou como a fome. Depois, perto do fim, Agite-se um pendăo Toque-se um clarim. Serve-se morto. Reinaldo Ferreira
Dúvida lexical Porque é que, por mais que procuremos no fundo do Baú pelas palavras certas, quando precisamos delas elas se enrolam na mente?
Mulher sentada ŕ espera da morte "Aproximei-me, devagar, e perguntei-lhe se queria que a ajudasse a atravessar. Que năo, respondeu. Que tinha tempo, muito, muito tempo, e que ninguém a esperava em casa a năo ser uma velha cadeira de baloiço onde costumava sentar-se ŕ espera da morte." José Abílio Coelho, in "O Homem que apanhava almas" O meu mais recente 'livro de cabeceira'... vai-se revelando devagarinho, a cada palavra, a cada pensamento, a cada vida...
Acordar Tenho medo de acordar e năo saber onde estou... Tenho medo de acordar e năo ser eu, ser outra pessoa qualquer, năo ter identidade, sair de mim, estar só de novo... sem passado nem presente... Ter apenas um medo atroz do futuro. A noite continua a parecer-me o fim. O fim de tudo. Arrasta uma dor imensa do recomeçar, do partir, do nada, do reconstruir... de uma nova vida.
Do outro lado do espelho Consegue ver as diferenças entre si e o seu reflexo no lago? Consegue descobrir qual dos dois é vocę? Eu nunca consegui. Por mais que olhe, por mais que tente... Săo dois eus tăo iguais que năo sei em que mundo vivo... Se em terra se no lago. Passa-se o mesmo com o espelho. Sabe que é exactamente este outro eu que lá me aparece? Năo compreendo... Um excerto do conto com o mesmo nome...
Persiana Num fim da tarde igual a muitos outros, abri o que restava da persiana entreaberta do quarto. E a luminosidade tornou-se incomparavelmente maior aqui dentro. Poderemos alguma vez abrir assim a persiana da alma?
Reincidęncia /144/ A literatura, como toda a arte, é muito estranha: quando a amamos (cultivando-a), volta-nos as costas. Se nos despedimos dela, vem ter connosco... Outra vez? Porra! Sebastiăo Alba Albas , das Ediçőes quasi...
Génese Só porque as fontes se deram as măos E as montanhas foram dóceis A esse gesto menino, Nasceram os rios E porque os rios correram Como se corre a brincar, Nasceu o mar. E porque o mar Se fez imensidăo Povoada de medos e sereias, Nasceram as caravelas. E logo embarcaram nelas Vates e marinheiros ŕs măos cheias. Cláudio Lima Finalmente consigo ter o Vate DO Reino nas minhas măos... Recomenda-se vivamente... e é só deslocar-se à banca da editora Ausęncia na Feira do Livro de Braga
Palavras em Férias: O Palavras em Férias é um blog amigo do Baú, homónimo nas "Palavras", que anuncia o seu fim. Espero que mais não seja que uma confusão de palavras...
Vazio... Uma espécie de vida, uma espécie de morte. Um símbolo de dor, novidade, vazio... Vazio lento e dolente, mas agitado como um turbilhăo de ideias que fere a própria razăo. No fundo é um buraco, um poço profundo, extenso, aterrorizante, e que o atrai magneticamente, incontrolavelmente, para o abismo do ser. E depois a escrita! Ah, a escrita! A folha despojada que olha de relance, receoso. Aquela imensidăo de branco imaculado que aterroriza e causa mágoa na essęncia do ser que, no fundo, năo é. O medo de aceitar a ideia de vazio, o năo querer enfrentar o buraco que o consome a pouco e pouco, que o enche de um nada. Um nada que é forte, duro, invencível e fantasmagoricamente grande...
Do outro lado do espelho Digo-te só que espero. Houve um tempo em que, para mim, esperar foi uma espécie de arte. (esperar por tudo: pela manhă, pela noite, pelo carteiro, pelo natal, pelos amigos... esperar só porque era bom esperar, porque fomentava pacięncia, porque era divino, porque era uma luta, porque implicava um qualquer objectivo) Agora espero sem arte, espero sem sentir qualquer alegria em fazę-lo. É mais fácil assim, deixar tudo suceder-se... Sem ninguém, sem nada me notar.
Hoje sou assim... Com bandarilhas de esperança afugentamos a fera estamos na praça da Primavera. Nós vamos pegar o mundo pelos cornos da desgraça e fazermos da tristeza graça. Tourada , Ary dos Santos
Sons do Sol Subitamente lembro tantas coisas diferentes, desligadas, desabituais. Cheiro café, maresia, algodăo doce. Vejo movimento, dança, vida, correria. Oiço música, vento, mar. Saboreio chocolate, menta, bolacha. Sinto calor, alegria, paz. Tudo porque hoje acordei com os sons do sol. Tudo porque abri os olhos e vi um chilrear rosa pálido a esgueirar-se pela janela. Tudo porque um latido azul forte e esquivo conseguiu passar pela frincha da porta...