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Nocturno: Eram, na rua, passos de mulher. Era o meu coração que os soletrava. Era, na jarra, além do malmequer, espectral o espinho de uma rosa brava... Era, no copo, além do gim, o gelo; além do gelo, a roda de limão... Era a mão de ninguém no meu cabelo. Era a noite mais quente deste verão. Era no gira-discos, o Martirio de São Sebastião, de Debussy.... Era, na jarra, de repente, um lirio! Era a certeza de ficar sem ti. Era o ladrar dos cães na vizinhança. Era, na sombra, um choro de criança... David Mourão-Ferreira
Lisbon Revisited (1923) Năo: năo quero nada. Já disse que năo quero nada. Năo me venham com conclusőes! A única conclusăo é morrer. Năo me tragam estéticas! Năo me falem em moral! Tirem-me daqui a metafísica! Năo me apregoem sistemas completos, năo me enfileirem conquistas Das cięncias (das cięncias, Deus meu, das cięncias!) - Das cięncias, das artes, da civilizaçăo moderna! Que mal fiz eu aos deuses todos? Se tęm a verdade, guardem-na! Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso sou doido, com todo o direito a sę-lo. Com todo o direito a sę-lo, ouviram? Năo me macem, por amor de Deus! Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. Assim, como sou, tenham pacięncia! Văo para o diabo sem mim, Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! Para que havemos de ir juntos? Năo me peguem no braço! Năo gosto que m...
Estrela da tarde Eu năo sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto! Ary dos Santos
O Deus das Pequenas Coisas As pessoas habituaram-se a vę-lo na estrada. Um homem bem vestido caminhando calado. A sua face tornou-se tisnada. Áspera. Enrugada pelo sol. Começou a parecer mais sábio do que realmente era. Como um pescador na cidade. Com segredos marinhos dentro de si. Arundhati Roy
Receita para fazer um herói Tome-se um homem, Feito de nada, como nós, E em tamanho natural. Embeba-se-lhe a carne, Lentamente, Duma certeza aguda, irracional, Intensa como o ódio ou como a fome. Depois, perto do fim, Agite-se um pendăo Toque-se um clarim. Serve-se morto. Reinaldo Ferreira
Dúvida lexical Porque é que, por mais que procuremos no fundo do Baú pelas palavras certas, quando precisamos delas elas se enrolam na mente?
Mulher sentada ŕ espera da morte "Aproximei-me, devagar, e perguntei-lhe se queria que a ajudasse a atravessar. Que năo, respondeu. Que tinha tempo, muito, muito tempo, e que ninguém a esperava em casa a năo ser uma velha cadeira de baloiço onde costumava sentar-se ŕ espera da morte." José Abílio Coelho, in "O Homem que apanhava almas" O meu mais recente 'livro de cabeceira'... vai-se revelando devagarinho, a cada palavra, a cada pensamento, a cada vida...
Acordar Tenho medo de acordar e năo saber onde estou... Tenho medo de acordar e năo ser eu, ser outra pessoa qualquer, năo ter identidade, sair de mim, estar só de novo... sem passado nem presente... Ter apenas um medo atroz do futuro. A noite continua a parecer-me o fim. O fim de tudo. Arrasta uma dor imensa do recomeçar, do partir, do nada, do reconstruir... de uma nova vida.
Do outro lado do espelho Consegue ver as diferenças entre si e o seu reflexo no lago? Consegue descobrir qual dos dois é vocę? Eu nunca consegui. Por mais que olhe, por mais que tente... Săo dois eus tăo iguais que năo sei em que mundo vivo... Se em terra se no lago. Passa-se o mesmo com o espelho. Sabe que é exactamente este outro eu que lá me aparece? Năo compreendo... Um excerto do conto com o mesmo nome...
Persiana Num fim da tarde igual a muitos outros, abri o que restava da persiana entreaberta do quarto. E a luminosidade tornou-se incomparavelmente maior aqui dentro. Poderemos alguma vez abrir assim a persiana da alma?
Reincidęncia /144/ A literatura, como toda a arte, é muito estranha: quando a amamos (cultivando-a), volta-nos as costas. Se nos despedimos dela, vem ter connosco... Outra vez? Porra! Sebastiăo Alba Albas , das Ediçőes quasi...
Génese Só porque as fontes se deram as măos E as montanhas foram dóceis A esse gesto menino, Nasceram os rios E porque os rios correram Como se corre a brincar, Nasceu o mar. E porque o mar Se fez imensidăo Povoada de medos e sereias, Nasceram as caravelas. E logo embarcaram nelas Vates e marinheiros ŕs măos cheias. Cláudio Lima Finalmente consigo ter o Vate DO Reino nas minhas măos... Recomenda-se vivamente... e é só deslocar-se à banca da editora Ausęncia na Feira do Livro de Braga
Palavras em Férias: O Palavras em Férias é um blog amigo do Baú, homónimo nas "Palavras", que anuncia o seu fim. Espero que mais não seja que uma confusão de palavras...
Vazio... Uma espécie de vida, uma espécie de morte. Um símbolo de dor, novidade, vazio... Vazio lento e dolente, mas agitado como um turbilhăo de ideias que fere a própria razăo. No fundo é um buraco, um poço profundo, extenso, aterrorizante, e que o atrai magneticamente, incontrolavelmente, para o abismo do ser. E depois a escrita! Ah, a escrita! A folha despojada que olha de relance, receoso. Aquela imensidăo de branco imaculado que aterroriza e causa mágoa na essęncia do ser que, no fundo, năo é. O medo de aceitar a ideia de vazio, o năo querer enfrentar o buraco que o consome a pouco e pouco, que o enche de um nada. Um nada que é forte, duro, invencível e fantasmagoricamente grande...