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Apontamento A minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu pela escada excessivamente abaixo. Caiu das m?os da criada descuidada. Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso. Asneira? Impossível? Sei lá! Tenho mais sensaç?es do que tinha quando me sentia eu. Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir. Fiz barulho na queda como um vaso que se partia. Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada. E fitam os cacos que a criada deles fez de mim. N?o se zanguem com ela. S?o tolerantes com ela. O que era eu um vaso vazio? Olham os cacos absurdamente conscientes, Mas conscientes de si mesmos, n?o conscientes deles. Olham e sorriem. Sorriem tolerantes ? criada involuntária. Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas. Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros. A minha obra? A minha alma principal? A minha vida? Um caco. E os deuses olham-no especialmente, pois n?o sabem por que ficou ali. Álvar...
Sem título "N?o sei de onde vim, nem porque vim, nem porque irei para onde vou. Só sei que aqui estou... se é que estou." António Leite
O acendedor de lampiões De tanto bater à porta Da noite que à noite cai, Ninguém com ele se importa Nas ruas por onde vai. De volta a casa, não diz Como aprendeu a acender Estrelas que o fazem feliz Porque não querem morrer. Vergílio Alberto Vieira, do livro inédito Para Chegar a Uma Estrela in Revista defacto , n.º12, Maio 2004
Cidade Oculta O guarda-fatos é uma rua perdida num beco da memória, o tapete é um qualquer rio que ruma ? nascente, a cómoda é um extenso edifício saturado de gente, a transbordar dezenas de cabeças de cada gavet?o. A cama move-se velozmente, fintando as grossas gotas de chuva que reflectem luzes. Laranja, vermelho, amarelo, branco... Escuro.
O primeiro dia A principio é simples, anda-se sozinho Passa-se nas ruas bem devagarinho Está-se bem no sil?ncio e no burburinho Bebe-se as certezas num copo de vinho E vem-nos ? memória uma frase batida Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo Diz-se do passado, que está moribundo Bebe-se o alento num copo sem fundo E vem-nos ? memória uma frase batida Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida E é ent?o que amigos nos oferecem leito Entra-se cansado e sai-se refeito Luta-se por tudo o que se leva a peito Bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito E vem-nos ? memória uma frase batida Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida Depois vem cansaços e o corpo fraqueja Olha-se para dentro e já pouco sobeja Pede-se descanso, por curto que seja Apagam-se duvidas num mar de cerveja E vem-nos ? memória uma frase batida Hoje é o primeiro dia d...
Ser Poeta Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! É ter de mil desejos o esplendor E năo saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhăs de oiro e de cetim... É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizę-lo cantando a toda a gente! Florbela Espanca (Recordaçőes da noite de ontem , ao som de Luís Represas...)
do lado do vento rochas marés de espuma gaivotas entre a bruma o vento sopra de norte nesta agitaçăo procuro ler da fala a ondulaçăo Ivo Machado, em Adágios de Benquerença
Azul ŕs vezes apenas uma gota de água sobre as rosas faz o perfume. năo perguntes porquę pois as rosas năo hăo-de responder-te. observa. depois respira o aroma do azul. Ivo Machado, em Adágios de Benquerença , das Ediçőes Salamandra
Maio Maduro Maio Maio maduro Maio Quem te pintou Quem te quebrou o encanto Nunca te amou Raiava o Sol já no Sul E uma falua vinha Lá de Istambul Sempre depois da sesta Chamando as flores Era o dia da festa Maio de amores Era o dia de cantar E uma falua andava Ao longe a varar Maio com meu amigo Quem dera já Sempre depois do trigo Se cantará Qu'importa a fúria do mar Que a voz năo te esmoreça Vamos lutar Numa rua comprida El-rei pastor Vende o soro da vida Que mata a dor Venham ver, Maio nasceu Que a voz năo te esmoreça A turba rompeu Zeca Afonso
Somos Livres Ontem apenas fomos a voz sufocada dum povo a dizer năo quero; fomos os bobos-do-rei mastigando desespero. Ontem apenas fomos o povo a chorar na sarjeta dos que, ŕ força, ultrajaram e venderam esta terra, hoje nossa. Uma gaivota voava, voava, assas de vento, coraçăo de mar. Como ela, somos livres, somos livres de voar. Uma papoila crescia, crescia, grito vermelho num campo qualquer. Como ela somos livres, somos livres de crescer. Uma criança dizia, dizia "quando for grande năo vou combater". Como ela, somos livres, somos livres de dizer. Somos um povo que cerra fileiras, parte ŕ conquista do păo e da paz. Somos livres, somos livres, năo voltaremos atrás . Ermelinda Duarte
As portas que Abril abriu (...) E se esse poder um dia o quiser roubar alguém năo fica na burguesia volta ŕ barriga da măe! Volta ŕ barriga da terra que em boa hora o pariu agora ninguém mais cerra as portas que Abril abriu! José Carlos Ary dos Santos Lisboa, Julho-Agosto de 1975
Năo há machado que corte Năo há machado que corte a raiz ao pensamento Năo há morte para o vento Năo há morte Se ao morrer o coraçăo Morresse a luz que lhe é querida Sem razăo seria a vida Sem razăo Nada apaga a luza que vive Num amor num pensamento Porque é livre como o vento Porque é livre António Gedeăo
O Voo da Serpente II A encomendaçăo das almas inclina-os para a frente. Nada levam de seu para o périplo turístico. Vergílio Alberto Vieira, em O Voo da Serpente , do Campo de Letras
Tonight, I ask... Who could call my name without regretting? Who could promise to never destroy me? Katatonia - Tonight's Music Last Fair Deal Gone Down, 2001