Fascinação Os sonhos mais lindos, sonhei, De quimeras mil um castelo, ergui, E no teu olhar, tonto de emoção, Com sofreguidão, mil venturas previ... O teu corpo é luz, sedução, Poema divino, cheio de esplendor, Teu sorriso, prende, inebria, entontece, És fascinação.... Amor! Elis Regina
Hoje tenho Oito Anos Por que você é Flamengo E meu pai Botafogo O que significa "Impávido colosso"? Por que os ossos doem enquanto a gente dorme Por que os dentes caem Por onde os filhos saem Por que os dedos murcham quando estou no banho Por que as ruas enchem quando está chovendo Quanto é mil trilhões vezes infinito Quem é Jesus Cristo Onde estão meus primos Well, well, well Gabriel... Por que o fogo queima Por que a lua é branca Por que a terra roda Por que deitar agora Por que as cobras matam Por que o vidro embaça Por que você se pinta Por que o tempo passa Por que que a gente espirra Por que as unhas crescem Por que o sangue corre Por que que a gente morre Do que é feita a nuvem Do que é feita a neve Como é que se escreve Réveillon Adriana Calcanhoto
Três sonetos de Deus ausente - 3 Porque Deus, se existisse, era o azul mais azul, a infância que não acaba. Era pai, colo, primavera, mil vezes raiar a mesma madrugada. E no desespero de um fim de tarde, haveria de aspergir sobre nós o seu olhar de infinita bondade, o calor do gesto, o cristal da voz. Tudo, tudo, outra vez seria novo, eterno mesmo só por um minuto: água de lume mais rosa do povo, voz, viagem, Penélope, Ulisses, som de piano, flauta, flor e fruto. Gostava tanto que Tu existisses! José Carlos de Vasconcelos, em Repórter do Coração
Três sonetos de Deus ausente - 2 Gostava tanto que Deus existisse! Como eu havia de ser diferente, pior ou melhor não sei, se o visse, na manhã de neblina persistente, a apanhar conchinhas brancas na praia, como quem apanha nuvens no céu. Seria menina e teria a saia azul, curta, talvez de chita; eu procuraria ajudá-la a encontrar a conchinha mais bonita, depois de ver a espuma das ondas e o ar a bailar como grandes bailarinos. E seríamos felizes os dois, pois ficaríamos sempre meninos. José Carlos de Vasconcelos, em Repórter do Coração
Três sonetos de Deus ausente - 1 Gostava tanto que Deus existisse! Como eu havia de ser diferente, pior ou melhor não sei, se o visse caminhando, humano, entre a gente que vai prò trabalho de madrugada tão pobre, suburbana, gente triste como ela só, e tão desamparada, que sofre, sofre tanto, mas resiste, e regressa a casa noite fechada, sem tempo para os filhos, o amor, nada, nada, semana após semana, gente humilhada, gente perseguida. E Deus ausente, seja onde for, todo o mês, todo o ano, toda a vida. José Carlos de Vasconcelos, em Repórter do Coração
Palavras (talvez) de saudade... Não sei o mundo que és. Não conheço o que trazes, o que tens. Sei apenas que no teu olhar escondes ondas do mar, plantas do bosque... Uma vida que não sei e não nomeio. Para mim, chega a areia do teu corpo, em que me perco, chega a fonte de ti, em que me sacio. O que eu sei me basta. Mesmo quando o que sei é nada.
Póvoa de Varzim Depois de quinze dias passados na Póvoa de Varzim, regresso finalmente a Braga. Para lembrar, fica o prazer indescritível de ouvir o poema seguinte recitado por Aurelino Costa... Lusitânia no Bairro Latino , por António Nobre "2. Georges! anda ver meu país de Marinheiros, O meu país das naus, de esquadras e de frotas! Oh as lanchas dos poveiros A saírem a barra, entre ondas e gaivotas! Que estranho é! Fincam o remo na água, até que o remo torça, À espera da maré, Que não tarda hi, avista-se lá fora! E quando a onda vem, fincando-o a toda a força, Clamam todas à uma: «Agora! agora! agora! E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo (Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar...) Que vista admirável! Que lindo! Que lindo! Içam a vela, quando já têm mar: Dá-lhes o Vento e todas, à po...
Voley: "O jogo do voleibol foi introduzido por William G. Morgan, em 1896, na cidade norte-americana de Springfield, no Massachusetts. Desde então, tornou-se um dos desportos colectivos mais apreciados e praticados em todo o mundo, com competições oficiais a serem disputadas em inúmeros países." A palavra voley é, provavelmente, um diminutivo de voleibol. Mais um serviço público com o apoio da Diciopédia
Nevoeiro (ou Nota ao Contexto Político Actual) "Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, Define com perfil e ser Este fulgor baço da terra Que é Portugal a entristecer - Brilho sem luz e sem arder, Como o que o fogo-fátuo encerra. Ninguém sabe que coisa quer. Ninguém conhece a alma que tem, Nem o que é mal nem o que é bem. (Que ânsia distante perto chora?) Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro. Ó Portugal, hoje és nevoeiro... É a hora!" Fernando Pessoa em A Mensagem
Poema Depus a máscara e vi-me ao espelho. - Era a criança de há quantos anos. Não tinha mudado nada... É essa a vantagem de saber tirar a máscara. É-se sempre a criança, O passado que foi A criança. Depus a máscara, e tornei a pô-la. Assim é melhor, Assim sem a máscara. E volto à personalidade como a um términus de linha. Álvaro de Campos
Sophia (1919 - 2004) Naquele Tempo Sob o caramachão de glicínia lilaz As abelhas e eu Tontas de perfume Lá no alto as abelhas Doiradas e pequenas Não se ocupavam de mim Iam de flor em flor E cá em baixo eu Sentada no banco de azulejos Entre penumbra e luz Flor e perfume Tão ávida como as abelhas Sophia de Mello Breyner Andresen , Abril de 98
O me! O life! O Me! O life!... of the questions of these recurring; Of the endless trains of the faithless - of cities fill’d with the foolish; Of myself forever reproaching myself, (for who more foolish than I, and who more faithless?) Of eyes that vainly crave the light - of the objects mean - of the struggle ever renew’d; Of the poor results of all - of the plodding and sordid crowds I see around me; Of the empty and useless years of the rest - with the rest me intertwined; The question, O me! so sad, recurring - What good amid these, O me, O life? Answer That you are here - that life exists, and identity; That the powerful play goes on, and you will contribute a verse. Walt Whitman, Leaves of Grass
Vozes Sempre que descubro que concordo comigo mesmo a cem por cento, não escrevo uma história; escrevo uma carta zangada a dizer ao meu governo o que é que deve fazer (se bem que não me ouçam). Mas se descubro mais do que uma razão dentro de mim, mais do que uma voz, às vezes acontece que as diferentes vozes se desenvolvem e transformam em personagens e, nessa altura, sei que uma história está em gestação dentro de mim. Amos Oz
Sonho
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.
Fernando Pessoa