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Retrato do poeta Retrato do poeta Porém, se por alguém não sou ninguém Se canto e digo Flor, canção, amigo A mim o devo A mim e a mais a quem Floriu, nasceu, cresceu, lutou, comigo. Homem que vive só, não vive bem. Morto que morre só, é negativo. Morrer é separar-se de ninguém E contudo, com todos ficar vivo Nado-vivo da morte É isso, é isso Uma espécie de forno, de bigorna De corno morredoiro, que transforma Em fusão, o metal do compromisso Forjar o conteúdo pela forma Marrar até morrer E dar por isso . Ary dos Santos
Um domingo de outono Cogumelos de pedra nasciam da areia. As ondas obrigavam as jogas a ranger e a chuva regava pensamentos. O vento levava fragmentos do mundo consigo.
Fascinação Os sonhos mais lindos, sonhei, De quimeras mil um castelo, ergui, E no teu olhar, tonto de emoção, Com sofreguidão, mil venturas previ... O teu corpo é luz, sedução, Poema divino, cheio de esplendor, Teu sorriso, prende, inebria, entontece, És fascinação.... Amor! Elis Regina
Hoje tenho Oito Anos Por que você é Flamengo E meu pai Botafogo O que significa "Impávido colosso"? Por que os ossos doem enquanto a gente dorme Por que os dentes caem Por onde os filhos saem Por que os dedos murcham quando estou no banho Por que as ruas enchem quando está chovendo Quanto é mil trilhões vezes infinito Quem é Jesus Cristo Onde estão meus primos Well, well, well Gabriel... Por que o fogo queima Por que a lua é branca Por que a terra roda Por que deitar agora Por que as cobras matam Por que o vidro embaça Por que você se pinta Por que o tempo passa Por que que a gente espirra Por que as unhas crescem Por que o sangue corre Por que que a gente morre Do que é feita a nuvem Do que é feita a neve Como é que se escreve Réveillon Adriana Calcanhoto
Três sonetos de Deus ausente - 3 Porque Deus, se existisse, era o azul mais azul, a infância que não acaba. Era pai, colo, primavera, mil vezes raiar a mesma madrugada. E no desespero de um fim de tarde, haveria de aspergir sobre nós o seu olhar de infinita bondade, o calor do gesto, o cristal da voz. Tudo, tudo, outra vez seria novo, eterno mesmo só por um minuto: água de lume mais rosa do povo, voz, viagem, Penélope, Ulisses, som de piano, flauta, flor e fruto. Gostava tanto que Tu existisses! José Carlos de Vasconcelos, em Repórter do Coração
Três sonetos de Deus ausente - 2 Gostava tanto que Deus existisse! Como eu havia de ser diferente, pior ou melhor não sei, se o visse, na manhã de neblina persistente, a apanhar conchinhas brancas na praia, como quem apanha nuvens no céu. Seria menina e teria a saia azul, curta, talvez de chita; eu procuraria ajudá-la a encontrar a conchinha mais bonita, depois de ver a espuma das ondas e o ar a bailar como grandes bailarinos. E seríamos felizes os dois, pois ficaríamos sempre meninos. José Carlos de Vasconcelos, em Repórter do Coração
Três sonetos de Deus ausente - 1 Gostava tanto que Deus existisse! Como eu havia de ser diferente, pior ou melhor não sei, se o visse caminhando, humano, entre a gente que vai prò trabalho de madrugada tão pobre, suburbana, gente triste como ela só, e tão desamparada, que sofre, sofre tanto, mas resiste, e regressa a casa noite fechada, sem tempo para os filhos, o amor, nada, nada, semana após semana, gente humilhada, gente perseguida. E Deus ausente, seja onde for, todo o mês, todo o ano, toda a vida. José Carlos de Vasconcelos, em Repórter do Coração
Palavras (talvez) de saudade... Não sei o mundo que és. Não conheço o que trazes, o que tens. Sei apenas que no teu olhar escondes ondas do mar, plantas do bosque... Uma vida que não sei e não nomeio. Para mim, chega a areia do teu corpo, em que me perco, chega a fonte de ti, em que me sacio. O que eu sei me basta. Mesmo quando o que sei é nada.
Póvoa de Varzim Depois de quinze dias passados na Póvoa de Varzim, regresso finalmente a Braga. Para lembrar, fica o prazer indescrití­vel de ouvir o poema seguinte recitado por Aurelino Costa... Lusitânia no Bairro Latino , por António Nobre "2. Georges! anda ver meu paí­s de Marinheiros, O meu paí­s das naus, de esquadras e de frotas! Oh as lanchas dos poveiros A saí­rem a barra, entre ondas e gaivotas! Que estranho é! Fincam o remo na água, até que o remo torça, À espera da maré, Que não tarda hi, avista-se lá fora! E quando a onda vem, fincando-o a toda a força, Clamam todas à uma: «Agora! agora! agora! E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo (Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar...) Que vista admirável! Que lindo! Que lindo! Içam a vela, quando já têm mar: Dá-lhes o Vento e todas, à po...
Voley: "O jogo do voleibol foi introduzido por William G. Morgan, em 1896, na cidade norte-americana de Springfield, no Massachusetts. Desde então, tornou-se um dos desportos colectivos mais apreciados e praticados em todo o mundo, com competições oficiais a serem disputadas em inúmeros países." A palavra voley é, provavelmente, um diminutivo de voleibol. Mais um serviço público com o apoio da Diciopédia
Nevoeiro (ou Nota ao Contexto Político Actual) "Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, Define com perfil e ser Este fulgor baço da terra Que é Portugal a entristecer - Brilho sem luz e sem arder, Como o que o fogo-fátuo encerra. Ninguém sabe que coisa quer. Ninguém conhece a alma que tem, Nem o que é mal nem o que é bem. (Que ânsia distante perto chora?) Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro. Ó Portugal, hoje és nevoeiro... É a hora!" Fernando Pessoa em A Mensagem
Poema Depus a máscara e vi-me ao espelho. - Era a criança de há quantos anos. Não tinha mudado nada... É essa a vantagem de saber tirar a máscara. É-se sempre a criança, O passado que foi A criança. Depus a máscara, e tornei a pô-la. Assim é melhor, Assim sem a máscara. E volto à personalidade como a um términus de linha. Álvaro de Campos
Sophia (1919 - 2004) Naquele Tempo Sob o caramachão de glicínia lilaz As abelhas e eu Tontas de perfume Lá no alto as abelhas Doiradas e pequenas Não se ocupavam de mim Iam de flor em flor E cá em baixo eu Sentada no banco de azulejos Entre penumbra e luz Flor e perfume Tão ávida como as abelhas Sophia de Mello Breyner Andresen , Abril de 98
O me! O life! O Me! O life!... of the questions of these recurring; Of the endless trains of the faithless - of cities fill’d with the foolish; Of myself forever reproaching myself, (for who more foolish than I, and who more faithless?) Of eyes that vainly crave the light - of the objects mean - of the struggle ever renew’d; Of the poor results of all - of the plodding and sordid crowds I see around me; Of the empty and useless years of the rest - with the rest me intertwined; The question, O me! so sad, recurring - What good amid these, O me, O life? Answer That you are here - that life exists, and identity; That the powerful play goes on, and you will contribute a verse. Walt Whitman, Leaves of Grass