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Moinho de vento... Impressão digital Os meus olhos são uns olhos. E é com esses olhos uns Que eu vejo no mundo escolhos Onde outros com outros olhos, Não vêem escolhos nenhuns. Quem diz escolhos diz flores. De tudo o mesmo se diz. Onde uns vêem luto e dores Uns outros descobrem cores Do mais formoso matiz. Nas ruas ou nas estradas Onde passa tanta gente, Uns vêem pedras pisadas, Mas outros, gnomos e fadas Num halo resplandecente. Inútil seguir vizinhos, Querer ser depois ou ser antes. Cada um é seus caminhos. Onde Sancho vê moinhos D. Quixote vê gigantes. Vê moinhos? São moinhos. Vê gigantes? São gigantes. António Gedeão, Poesias Completas
Tenho um livro novo... "No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescentes virgem. Lembrei-me de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar os seus bons clientes quando tinha uma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma das suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza dos meus princípiios. A moral também é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, tu verás." Gabriel García Márquez, em Memórias das minhas putas tristes
Um poema para mim... Soneto Fecham-se os dedos donde corre a esperança, Toldam-se os olhos donde corre a vida. Porquê esperar, porquê, se não se alcança Mais do que a angústia que nos é devida? Antes aproveitar a nossa herança De intenções e palavras proibidas. Antes rirmos do anjo, cuja lança Nos expulsa da terra prometida. Antes sofrer a raiva e sarcasmo, Antes o olhar que peca, a mão que rouba. O gesto que estrangula, a voz que grita. Antes viver do que morrer no pasmo Do nada que nos surge e nos devora, Do monstro que inventámos e nos fita. José Carlos Ary dos Santos
Constatação: Hipatia escreveu: "E eu gosto de vir aqui espreitar, volta e meia e encontrar o baú repleto." É exactamente isso, este Baú funciona em regime de "volta e meia" :).
Natal " ...há um só banquete que desbanca todos os jantares de Paris, mas que os desbanca inteiramente: é a ceia de véspera de Natal nas nossas terras do Minho..." Ramalho Ortigão
Palavras As palavras deste baú t?m-me escapado. N?o sei porqu?... Por vezes sinto que n?o tenho nada a acrescentar ao que é dito, tenho a sensaç?o que o que é dito aqui com tanto sentimento n?o me diz respeito. Mas vou continuar a acrescentar aqui algumas palavras. Porque me sinto bem e gosto colaborar para que este baú nunca tenha fundo.
Sr. Pessoa: ISTO Dizem que finjo ou minto Tudo o que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço, Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê! Fernando Pessoa
Montanhas Das nublosas em que te emaranhas Levanta-te, alma, e dize-me, afinal, Qual é, na natureza espiritual, A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjectividade ascensional Paralisada e estrangulada, mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas, porventura, Estacionadas, íngremes, assim, Por um abortamento de mecânica, A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! Augusto dos Anjos
Retrato do poeta Retrato do poeta Porém, se por alguém não sou ninguém Se canto e digo Flor, canção, amigo A mim o devo A mim e a mais a quem Floriu, nasceu, cresceu, lutou, comigo. Homem que vive só, não vive bem. Morto que morre só, é negativo. Morrer é separar-se de ninguém E contudo, com todos ficar vivo Nado-vivo da morte É isso, é isso Uma espécie de forno, de bigorna De corno morredoiro, que transforma Em fusão, o metal do compromisso Forjar o conteúdo pela forma Marrar até morrer E dar por isso . Ary dos Santos
Um domingo de outono Cogumelos de pedra nasciam da areia. As ondas obrigavam as jogas a ranger e a chuva regava pensamentos. O vento levava fragmentos do mundo consigo.
Fascinação Os sonhos mais lindos, sonhei, De quimeras mil um castelo, ergui, E no teu olhar, tonto de emoção, Com sofreguidão, mil venturas previ... O teu corpo é luz, sedução, Poema divino, cheio de esplendor, Teu sorriso, prende, inebria, entontece, És fascinação.... Amor! Elis Regina
Hoje tenho Oito Anos Por que você é Flamengo E meu pai Botafogo O que significa "Impávido colosso"? Por que os ossos doem enquanto a gente dorme Por que os dentes caem Por onde os filhos saem Por que os dedos murcham quando estou no banho Por que as ruas enchem quando está chovendo Quanto é mil trilhões vezes infinito Quem é Jesus Cristo Onde estão meus primos Well, well, well Gabriel... Por que o fogo queima Por que a lua é branca Por que a terra roda Por que deitar agora Por que as cobras matam Por que o vidro embaça Por que você se pinta Por que o tempo passa Por que que a gente espirra Por que as unhas crescem Por que o sangue corre Por que que a gente morre Do que é feita a nuvem Do que é feita a neve Como é que se escreve Réveillon Adriana Calcanhoto
Três sonetos de Deus ausente - 3 Porque Deus, se existisse, era o azul mais azul, a infância que não acaba. Era pai, colo, primavera, mil vezes raiar a mesma madrugada. E no desespero de um fim de tarde, haveria de aspergir sobre nós o seu olhar de infinita bondade, o calor do gesto, o cristal da voz. Tudo, tudo, outra vez seria novo, eterno mesmo só por um minuto: água de lume mais rosa do povo, voz, viagem, Penélope, Ulisses, som de piano, flauta, flor e fruto. Gostava tanto que Tu existisses! José Carlos de Vasconcelos, em Repórter do Coração
Três sonetos de Deus ausente - 2 Gostava tanto que Deus existisse! Como eu havia de ser diferente, pior ou melhor não sei, se o visse, na manhã de neblina persistente, a apanhar conchinhas brancas na praia, como quem apanha nuvens no céu. Seria menina e teria a saia azul, curta, talvez de chita; eu procuraria ajudá-la a encontrar a conchinha mais bonita, depois de ver a espuma das ondas e o ar a bailar como grandes bailarinos. E seríamos felizes os dois, pois ficaríamos sempre meninos. José Carlos de Vasconcelos, em Repórter do Coração
Três sonetos de Deus ausente - 1 Gostava tanto que Deus existisse! Como eu havia de ser diferente, pior ou melhor não sei, se o visse caminhando, humano, entre a gente que vai prò trabalho de madrugada tão pobre, suburbana, gente triste como ela só, e tão desamparada, que sofre, sofre tanto, mas resiste, e regressa a casa noite fechada, sem tempo para os filhos, o amor, nada, nada, semana após semana, gente humilhada, gente perseguida. E Deus ausente, seja onde for, todo o mês, todo o ano, toda a vida. José Carlos de Vasconcelos, em Repórter do Coração