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lento leve lento leve noto os membros anteriores transformarem-se em asas o corpo cobrir-se de penas e a boca terminar em bico e vou desenhar a seqüęncia de movimento do voo de umha ave com os braços estendidos ŕ janela do meu quarto bato bato cadencioso ao borda deste abismo voluntário e grato e basta um impulso breve com as pernas para elevar-me mas... qual ave hei de ser antes de mergulhar no ar... nom é, contudo, isso saber fundamental perseguir os perfis das asas do aviom desde estas dunas em delta em flecha ou supersónicas lá em cima para lograr talvez ser tam só um aeróbata feliz no tempo em que os aeróbatas passaram já de moda... Carlos Quiroga, em A Espera Crepuscular (Viagem ao Cabo Nom) , das Ediçőes Quasi
Tempos O tempo existe, é real, é presente, é agora, é já! O tempo é vivo, é móbil, é estranho, é só! O tempo corre em horas mortas, tenebrosas, perde-se em horas vivas, alegres, encontra-se em horas plácidas, estáticas.
Estranheza Ao fim da tarde há andorinhas que tentam entrar pelas janelas entreabertas. Tudo aqui é diferente. Tudo é bizarro. Tudo é mais do que deveria ser. Tudo deixou de ser. Tudo deixou de estar. E acordo em mim, ainda com os olhos fechados...
Casa... Quando chegávamos, enfim, eram as paredes gastas revestidas a papel florido, tingido a tabaco. Eram as violetas na sala, as rosas nos quartos, os malmequeres na entrada, as tulipas no corredor... Era o chăo execrável, as casas de banho rosa e azul e verde e lilás e vermelho... Era o arco-íris cínico da casa há muito morta.
Medo (...)Năo somos robôs nem pedras falantes, senhor agente, disse a mulher, em toda a verdade humana há sempre algo de angustioso, de aflito, nós somos, e năo estou a referir-me simplesmente ŕ fragilidade da vida, somos uma pequena e trémula chama que a cada instante ameaça apagar-se, e temos medo, acima de tudo temos medo (...) José Saramago em Ensaio sobre a Lucidez (p.58)
Céptica O tempo futuro é nada. É năo saber, năo ver, năo sentir, năo cheirar, năo saborear. É nada. Nem vazio chega a ser. E năo tem cor. É uma invençăo. E uma invençăo improvável até. Alguem viu o futuro? Alguém sabe o que esperar? Entăo năo me enganem! Năo existe.
Mais uma vez... Fecham-se os dedos donde corre a esperança Toldam-se os olhos donde corre a vida. Porquę esperar, porquę, se năo se alcança Mais do que a angústia que nos é devida? Antes aproveitar a nossa herança De intençőes e palavras proibidas. Antes rirmos do anjo, cuja lança Nos expulsa da terra prometida. Antes sofrer a raiva e o sarcasmo, Antes o olhar que peca, a măo que rouba, O gesto que estrangula, a voz que grita. Antes viver do que morrer no pasmo Do nada que nos surge e nos devora, Do monstro que inventámos e nos fita. Ary dos Santos
Nocturno: Eram, na rua, passos de mulher. Era o meu coração que os soletrava. Era, na jarra, além do malmequer, espectral o espinho de uma rosa brava... Era, no copo, além do gim, o gelo; além do gelo, a roda de limão... Era a mão de ninguém no meu cabelo. Era a noite mais quente deste verão. Era no gira-discos, o Martirio de São Sebastião, de Debussy.... Era, na jarra, de repente, um lirio! Era a certeza de ficar sem ti. Era o ladrar dos cães na vizinhança. Era, na sombra, um choro de criança... David Mourão-Ferreira
Lisbon Revisited (1923) Năo: năo quero nada. Já disse que năo quero nada. Năo me venham com conclusőes! A única conclusăo é morrer. Năo me tragam estéticas! Năo me falem em moral! Tirem-me daqui a metafísica! Năo me apregoem sistemas completos, năo me enfileirem conquistas Das cięncias (das cięncias, Deus meu, das cięncias!) - Das cięncias, das artes, da civilizaçăo moderna! Que mal fiz eu aos deuses todos? Se tęm a verdade, guardem-na! Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso sou doido, com todo o direito a sę-lo. Com todo o direito a sę-lo, ouviram? Năo me macem, por amor de Deus! Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. Assim, como sou, tenham pacięncia! Văo para o diabo sem mim, Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! Para que havemos de ir juntos? Năo me peguem no braço! Năo gosto que m...
Estrela da tarde Eu năo sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto! Ary dos Santos
O Deus das Pequenas Coisas As pessoas habituaram-se a vę-lo na estrada. Um homem bem vestido caminhando calado. A sua face tornou-se tisnada. Áspera. Enrugada pelo sol. Começou a parecer mais sábio do que realmente era. Como um pescador na cidade. Com segredos marinhos dentro de si. Arundhati Roy
Receita para fazer um herói Tome-se um homem, Feito de nada, como nós, E em tamanho natural. Embeba-se-lhe a carne, Lentamente, Duma certeza aguda, irracional, Intensa como o ódio ou como a fome. Depois, perto do fim, Agite-se um pendăo Toque-se um clarim. Serve-se morto. Reinaldo Ferreira
Dúvida lexical Porque é que, por mais que procuremos no fundo do Baú pelas palavras certas, quando precisamos delas elas se enrolam na mente?
Mulher sentada ŕ espera da morte "Aproximei-me, devagar, e perguntei-lhe se queria que a ajudasse a atravessar. Que năo, respondeu. Que tinha tempo, muito, muito tempo, e que ninguém a esperava em casa a năo ser uma velha cadeira de baloiço onde costumava sentar-se ŕ espera da morte." José Abílio Coelho, in "O Homem que apanhava almas" O meu mais recente 'livro de cabeceira'... vai-se revelando devagarinho, a cada palavra, a cada pensamento, a cada vida...
Acordar Tenho medo de acordar e năo saber onde estou... Tenho medo de acordar e năo ser eu, ser outra pessoa qualquer, năo ter identidade, sair de mim, estar só de novo... sem passado nem presente... Ter apenas um medo atroz do futuro. A noite continua a parecer-me o fim. O fim de tudo. Arrasta uma dor imensa do recomeçar, do partir, do nada, do reconstruir... de uma nova vida.