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Maio Maduro Maio Maio maduro Maio Quem te pintou Quem te quebrou o encanto Nunca te amou Raiava o Sol já no Sul E uma falua vinha Lá de Istambul Sempre depois da sesta Chamando as flores Era o dia da festa Maio de amores Era o dia de cantar E uma falua andava Ao longe a varar Maio com meu amigo Quem dera já Sempre depois do trigo Se cantará Qu'importa a fúria do mar Que a voz năo te esmoreça Vamos lutar Numa rua comprida El-rei pastor Vende o soro da vida Que mata a dor Venham ver, Maio nasceu Que a voz năo te esmoreça A turba rompeu Zeca Afonso
Somos Livres Ontem apenas fomos a voz sufocada dum povo a dizer năo quero; fomos os bobos-do-rei mastigando desespero. Ontem apenas fomos o povo a chorar na sarjeta dos que, ŕ força, ultrajaram e venderam esta terra, hoje nossa. Uma gaivota voava, voava, assas de vento, coraçăo de mar. Como ela, somos livres, somos livres de voar. Uma papoila crescia, crescia, grito vermelho num campo qualquer. Como ela somos livres, somos livres de crescer. Uma criança dizia, dizia "quando for grande năo vou combater". Como ela, somos livres, somos livres de dizer. Somos um povo que cerra fileiras, parte ŕ conquista do păo e da paz. Somos livres, somos livres, năo voltaremos atrás . Ermelinda Duarte
As portas que Abril abriu (...) E se esse poder um dia o quiser roubar alguém năo fica na burguesia volta ŕ barriga da măe! Volta ŕ barriga da terra que em boa hora o pariu agora ninguém mais cerra as portas que Abril abriu! José Carlos Ary dos Santos Lisboa, Julho-Agosto de 1975
Năo há machado que corte Năo há machado que corte a raiz ao pensamento Năo há morte para o vento Năo há morte Se ao morrer o coraçăo Morresse a luz que lhe é querida Sem razăo seria a vida Sem razăo Nada apaga a luza que vive Num amor num pensamento Porque é livre como o vento Porque é livre António Gedeăo
O Voo da Serpente II A encomendaçăo das almas inclina-os para a frente. Nada levam de seu para o périplo turístico. Vergílio Alberto Vieira, em O Voo da Serpente , do Campo de Letras
Tonight, I ask... Who could call my name without regretting? Who could promise to never destroy me? Katatonia - Tonight's Music Last Fair Deal Gone Down, 2001
lento leve lento leve noto os membros anteriores transformarem-se em asas o corpo cobrir-se de penas e a boca terminar em bico e vou desenhar a seqüęncia de movimento do voo de umha ave com os braços estendidos ŕ janela do meu quarto bato bato cadencioso ao borda deste abismo voluntário e grato e basta um impulso breve com as pernas para elevar-me mas... qual ave hei de ser antes de mergulhar no ar... nom é, contudo, isso saber fundamental perseguir os perfis das asas do aviom desde estas dunas em delta em flecha ou supersónicas lá em cima para lograr talvez ser tam só um aeróbata feliz no tempo em que os aeróbatas passaram já de moda... Carlos Quiroga, em A Espera Crepuscular (Viagem ao Cabo Nom) , das Ediçőes Quasi
Tempos O tempo existe, é real, é presente, é agora, é já! O tempo é vivo, é móbil, é estranho, é só! O tempo corre em horas mortas, tenebrosas, perde-se em horas vivas, alegres, encontra-se em horas plácidas, estáticas.
Estranheza Ao fim da tarde há andorinhas que tentam entrar pelas janelas entreabertas. Tudo aqui é diferente. Tudo é bizarro. Tudo é mais do que deveria ser. Tudo deixou de ser. Tudo deixou de estar. E acordo em mim, ainda com os olhos fechados...
Casa... Quando chegávamos, enfim, eram as paredes gastas revestidas a papel florido, tingido a tabaco. Eram as violetas na sala, as rosas nos quartos, os malmequeres na entrada, as tulipas no corredor... Era o chăo execrável, as casas de banho rosa e azul e verde e lilás e vermelho... Era o arco-íris cínico da casa há muito morta.
Medo (...)Năo somos robôs nem pedras falantes, senhor agente, disse a mulher, em toda a verdade humana há sempre algo de angustioso, de aflito, nós somos, e năo estou a referir-me simplesmente ŕ fragilidade da vida, somos uma pequena e trémula chama que a cada instante ameaça apagar-se, e temos medo, acima de tudo temos medo (...) José Saramago em Ensaio sobre a Lucidez (p.58)
Céptica O tempo futuro é nada. É năo saber, năo ver, năo sentir, năo cheirar, năo saborear. É nada. Nem vazio chega a ser. E năo tem cor. É uma invençăo. E uma invençăo improvável até. Alguem viu o futuro? Alguém sabe o que esperar? Entăo năo me enganem! Năo existe.
Mais uma vez... Fecham-se os dedos donde corre a esperança Toldam-se os olhos donde corre a vida. Porquę esperar, porquę, se năo se alcança Mais do que a angústia que nos é devida? Antes aproveitar a nossa herança De intençőes e palavras proibidas. Antes rirmos do anjo, cuja lança Nos expulsa da terra prometida. Antes sofrer a raiva e o sarcasmo, Antes o olhar que peca, a măo que rouba, O gesto que estrangula, a voz que grita. Antes viver do que morrer no pasmo Do nada que nos surge e nos devora, Do monstro que inventámos e nos fita. Ary dos Santos
Nocturno: Eram, na rua, passos de mulher. Era o meu coração que os soletrava. Era, na jarra, além do malmequer, espectral o espinho de uma rosa brava... Era, no copo, além do gim, o gelo; além do gelo, a roda de limão... Era a mão de ninguém no meu cabelo. Era a noite mais quente deste verão. Era no gira-discos, o Martirio de São Sebastião, de Debussy.... Era, na jarra, de repente, um lirio! Era a certeza de ficar sem ti. Era o ladrar dos cães na vizinhança. Era, na sombra, um choro de criança... David Mourão-Ferreira
Lisbon Revisited (1923) Năo: năo quero nada. Já disse que năo quero nada. Năo me venham com conclusőes! A única conclusăo é morrer. Năo me tragam estéticas! Năo me falem em moral! Tirem-me daqui a metafísica! Năo me apregoem sistemas completos, năo me enfileirem conquistas Das cięncias (das cięncias, Deus meu, das cięncias!) - Das cięncias, das artes, da civilizaçăo moderna! Que mal fiz eu aos deuses todos? Se tęm a verdade, guardem-na! Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso sou doido, com todo o direito a sę-lo. Com todo o direito a sę-lo, ouviram? Năo me macem, por amor de Deus! Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. Assim, como sou, tenham pacięncia! Văo para o diabo sem mim, Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! Para que havemos de ir juntos? Năo me peguem no braço! Năo gosto que m...