Sábado, Janeiro 2

Adiamento


Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...

Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,

E assim será possível; mas hoje não...

Não, hoje nada; hoje não posso.

A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,

O sono da minha vida real, intercalado,

O cansaço antecipado e infinito,

Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...

Esta espécie de alma...

Só depois de amanhã...

Hoje quero preparar-me,

Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...

Ele é que é decisivo.

Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...

Amanhã é o dia dos planos.

Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;

Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...

Tenho vontade de chorar,

Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.

Só depois de amanhã...

Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.

Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...

Depois de amanhã serei outro,

A minha vida triunfar-se-á,

Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático

Serão convocadas por um edital...

Mas por um edital de amanhã...

Hoje quero dormir, redigirei amanhã...

Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?

Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,

Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...

Antes, não...

Depois de amanhã terei a posse pública que amanhã estudarei.

Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.

Só depois de amanhã...

Tenho sono como o frio de um cão vadio.

Tenho muito sono.

Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...

Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...

Sim, o porvir...


Álvaro de Campos


Calisto abriu o Baú às 01:00.




Terça-feira, Dezembro 1

Não quero ser aqui.

Não quero ser aqui. Ser chuva. Ser casa. Ser país. Ser espaço. Ser vida.
Não quero.
Não aqui.

Calisto abriu o Baú às 13:12.




Sábado, Novembro 28

E eis que...

Este episódio, que deu origem à primeira definição de um até aí ignorado pecado original, nunca ficou bem explicado. Em primeiro lugar, mesmo a inteligência mais rudimentar não teria qualquer dificuldade em compreender que estar informado sempre será preferível a desconhecer, mormente em matérias tão delicadas como são estas do bem e do mal, nas quais qualquer um se arrisca, sem dar por isso, a uma condenação eterna num inferno que então ainda estava por inventar.

José Saramago, Caim (pp. 14-15)

Calisto abriu o Baú às 11:35.




Segunda-feira, Agosto 24

Liberdade...

Livros são papéis pintados com tinta. 
Estudar é uma coisa em que está indistinta 
À distinção entre nada e coisa nenhuma.

Fernando Pessoa

Calisto abriu o Baú às 01:24.




Quinta-feira, Maio 7

Objecto

Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são
(...)

Ary dos Santos

Calisto abriu o Baú às 23:11.




Domingo, Abril 26

Mónica

"Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da "Liga Internacional das Mulheres Inúteis", ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedade musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.

(...)

De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

(...)

É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também.

(...)"


Excertos de Mónica,
em Contos Exemplares
de Sophia de Mello Breyner

Calisto abriu o Baú às 12:20.




Sábado, Abril 25

25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner

Calisto abriu o Baú às 20:38.




O Baú das Palavras...

Bem do fundo do baú da alma, libertam-se as letras, as palavras, as frases...

Escreve-me uma mensagem...
(e-m@il)


BookCrossing

Segredos no Baú

-- A lista da Calisto

-- Jack's Blog
-- 100nada (pt)
-- A lonely painter
-- Atacadores
-- Caixa de Chocolates
-- Caneta Sem Tinta
-- Coisinhas da Calisto
-- Contos&Contas
-- Cursed Children
-- Do lado de cá
-- Destination: myself
-- Diz a minha avó
-- Fechado para obras
-- Gato Fedorento
-- ideias pequeninas
-- Knoop
-- Loopings
-- Na parede do meu quarto
-- No Arame
-- O Blog do Putos
-- Pano do Pó
-- Planeta b612
-- Say What?
-- Searas de versos
-- The eye of my memory
-- Vinte Anos
-- Xobineski Patruska

(...)

 

No fundo do Baú

  11/23/2003 - 11/30/200311/30/2003 - 12/07/200312/07/2003 - 12/14/200312/14/2003 - 12/21/200312/21/2003 - 12/28/200312/28/2003 - 01/04/200401/04/2004 - 01/11/200401/11/2004 - 01/18/200401/18/2004 - 01/25/200401/25/2004 - 02/01/200402/01/2004 - 02/08/200402/08/2004 - 02/15/200402/15/2004 - 02/22/200402/22/2004 - 02/29/200402/29/2004 - 03/07/200403/07/2004 - 03/14/200403/14/2004 - 03/21/200403/21/2004 - 03/28/200403/28/2004 - 04/04/200404/04/2004 - 04/11/200404/11/2004 - 04/18/200404/18/2004 - 04/25/200404/25/2004 - 05/02/200405/02/2004 - 05/09/200405/09/2004 - 05/16/200405/16/2004 - 05/23/200405/23/2004 - 05/30/200405/30/2004 - 06/06/200406/06/2004 - 06/13/200406/13/2004 - 06/20/200406/20/2004 - 06/27/200406/27/2004 - 07/04/200407/04/2004 - 07/11/200408/01/2004 - 08/08/200408/15/2004 - 08/22/200408/29/2004 - 09/05/200409/05/2004 - 09/12/200409/12/2004 - 09/19/200409/26/2004 - 10/03/200410/10/2004 - 10/17/200410/17/2004 - 10/24/200410/24/2004 - 10/31/200411/07/2004 - 11/14/200412/05/2004 - 12/12/200412/12/2004 - 12/19/200412/19/2004 - 12/26/200401/02/2005 - 01/09/200502/27/2005 - 03/06/200503/13/2005 - 03/20/200503/20/2005 - 03/27/200503/27/2005 - 04/03/200504/17/2005 - 04/24/200505/15/2005 - 05/22/200506/12/2005 - 06/19/200506/19/2005 - 06/26/200507/17/2005 - 07/24/200507/24/2005 - 07/31/200508/21/2005 - 08/28/200511/20/2005 - 11/27/200512/04/2005 - 12/11/200512/18/2005 - 12/25/200508/13/2006 - 08/20/200608/20/2006 - 08/27/200608/27/2006 - 09/03/200609/03/2006 - 09/10/200609/10/2006 - 09/17/200610/01/2006 - 10/08/200610/08/2006 - 10/15/200610/15/2006 - 10/22/200611/05/2006 - 11/12/200601/06/2008 - 01/13/200804/06/2008 - 04/13/200807/20/2008 - 07/27/200808/03/2008 - 08/10/200808/10/2008 - 08/17/200808/17/2008 - 08/24/200808/31/2008 - 09/07/200809/21/2008 - 09/28/200810/12/2008 - 10/19/200810/19/2008 - 10/26/200812/14/2008 - 12/21/200801/04/2009 - 01/11/200902/01/2009 - 02/08/200902/22/2009 - 03/01/200903/08/2009 - 03/15/200903/15/2009 - 03/22/200903/29/2009 - 04/05/200904/05/2009 - 04/12/200904/12/2009 - 04/19/200904/19/2009 - 04/26/200904/26/2009 - 05/03/200905/03/2009 - 05/10/200908/23/2009 - 08/30/200911/22/2009 - 11/29/200911/29/2009 - 12/06/200912/27/2009 - 01/03/2010