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A mostrar mensagens de Março 28, 2004
Nocturno:

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martirio
de São Sebastião, de Debussy....
Era, na jarra, de repente, um lirio!

Era a certeza de ficar sem ti.
Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...


David Mourão-Ferreira
Lisbon Revisited (1923)

Năo: năo quero nada.
Já disse que năo quero nada.

Năo me venham com conclusőes!
A única conclusăo é morrer.

Năo me tragam estéticas!
Năo me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Năo me apregoem sistemas completos, năo me enfileirem conquistas
Das cięncias (das cięncias, Deus meu, das cięncias!) -
Das cięncias, das artes, da civilizaçăo moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se tęm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sę-lo.
Com todo o direito a sę-lo, ouviram?

Năo me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham pacięncia!
Văo para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Năo me peguem no braço!
Năo gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já dis…
Estrela da tarde

Eu năo sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!



Ary dos Santos