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A mostrar mensagens de Dezembro 14, 2003
Ruídos

Cheguei a casa ŕs quatro da madrugada. Pela primeira vez em muito tempo fui capaz de ouvir os meus barulhos, os barulhos da rua, os barulhos da noite... sem mais.
Há a porta do carro a fechar, o gato a correr no jardim, os minúsculos pingos de chuva a tocarem o gradeamento, o vento nas folhas das árvores, os passos arrastados de quem chega cansado...

Acho que posso dizer que vi, pela primeira vez, os ruídos...
Chocolates...

Encontrei numa das revistas das boas recordaçőes um dos meus poemas favoritos:

"Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que năo há mais metafísica no mundo senăo chocolates.
Olha que as religiőes todas năo ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!"


Álvaro de Campos (de Tabacaria)

Năo pude deixar de sorrir ao lembrar quem mo declamou, num restaurante, com o copo de vinho numa măo, o cigarro na outra...
Năo pude deixar de recordar uma outra pessoa presente, com o sorriso do tamanho do mundo, com o abraço do tamanho do conforto...
Năo pude deixar de me sentir pequena de novo, como me senti na altura, como me sinto agora que recordo o episódio...

Subitamente tenho vontade de comer chocolates... Assim só... com toda a verdade do mundo...
Palavras

Hoje năo tenho palavras para oferecer ao baú.
Hoje as recordaçőes envolveram-se, pé ante pé, no meu sono, sonho, acordar, viver... ser.
Hoje as acçőes chegaram e partiram sós, sublimes, sistemáticas, sorrateiras.
Hoje os sentimentos foram mais do que as palavras.

Talvez assim, tu compreendas melhor porque é que este baú é preenchido de palavras de outrém que năo eu; às vezes, as palavras que năo temos, vivem e inflamam mesmo numa outra boca, numa outra caneta, numa outra alma.