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Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro 30, 2003
Para ti...

"Please tell me your second name
Please play me your second game
I've fallen so far
For the people you are
I just need your star for a day."


Um pouco da música Fly do Nick Drake...
Poeta DA Rua
(assim com maiúsculas e tudo)

Sebastiăo Alba,poeta andarilho, nascido a 11 de Março de 1940, viveu os últimos anos na rua por opcçăo. Por companhia os poemas, o tabaco, o álcool e os inúmeros seguidores da obra...

Um dia, saindo eu da escola falou comigo. Năo me recordo exactamente o que me disse, mas era certamente poesia - sempre foi esse o mote nas raras vezes em que a ele a mim se dirigia.

Na manhă 14 de Outubro de 2000, foi atropelado mortalmente por um condutor que se pôs em fuga, em Braga. A 7 de Outubro, num bilhete quase premonitório ao amigo Vergílio Alberto Vieira escrevia: «Se um dia encontrarem morto "o teu irmăo Dinis", o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia năo entenderá.»

Sebastiăo Alba
11.03.1940 a 14.10.2000



há poetas com musa. Muitos.

Há poetas com musa. Muitos.
Eu, neste jardim do Éden,
a cargo do município,
onde um velho destece a sua vida
e, baixando o olhar,
ainda lhe afaga a trama,
O amanhă...

"Foi nessa tarde que aconteceu ter-me percebido no futuro.
Tinha a idade dos pássaros nos dias de poesia, tinha a noite arrumada em personagens incertas. Cuidava dos perigos com carinho, lavado e de barba feita. Viajante de mim."


Fica aqui este excerto de um texto de Miguel Duarte Soares, enquanto procuro perceber-me a mim, no futuro...
Fim de Poema

Para que nem tudo vos seja sonegado,
cultivai a surdina.
Eu fico em surdina.
Em surdina aparo
os utensílios,
em surdina me preparo
para morrer.
Amo, chut!, em surdina;
a minha vida,
nesga entre dois ponteiros, fecha-se
em surdina.


Sebastiăo Alba
Percalços...

Tenho uma consulta marcada para as 16:30...
Eu: transparente.
Ela: olhos fixos num ponto qualquer para além de mim.
Tem que esperar. A doutora chegou tarde.
Nem mais.
Chegou tarde. Eu espero.
Eu, transparente, invisível... espero.
Pela doutora que chegou tarde.
Mais um impasse na minha vida, mais minutos perdidos, desperdiçados... quem sabe se serăo antes horas? Horas que poderiam ser úteis, poderiam fazer falta, poderiam ser minhas!
Mas năo. Espero. Săo horas da doutora. Chegou tarde.
Tem que esperar. Năo podemos fazer nada.
Espero. Desespero. Desperto e nada. Vazio... Só a espera e eu. A sala cheia de gente e eu. Como eu, a esperar. Sem mais.
Espera, insiste, acredita.
Chegou tarde.
Percalços no caminho. Esperas na estrada.
E eu, transparente, espero.
Arte Poética

1.
Chega a măo
a escrever
negro chega onde
escreve
chega onde chega
a escrever năo

2.
Chega ou năo
a escrever
năo chega onde
chega
escreve onde a negro
escreve a măo

3.
Chega em văo
a escrever
negro escreve onde
chega
quando escreve
escreve năo

4.
Chega entăo a
escrever
năo chega negro
a escrever
măo escreve escreve
escreva ou năo.


de Vergílio Alberto Vieira, em "O voo da serpente"... a năo perder...
Tempo

"O tempo vai aproximando as coisas. Olho para uma árvore. É um álamo, a bétula onde procuro o princípio da floresta... Năo importa! A esta hora inicio a cor e o silęncio da terra. A música năo difere muito do que do que ando a ver. O dia parece ter pressa, mas a luz năo incomoda. Uma floresta inicial lembra o sistema do universo. As leis convergem no império das cores. É lento o castanho, o ocre, o anil. A folha dá sinal. Vai cair. Quem vem demorar o seu olhar?"

de José Miguel Braga, o meu mestre...
Chuva

As coisas vulgares que há na vida
não deixam saudade
Só as lembranças que doem
ou fazem sorrir
Há gente que fica na história
na história da gente
E outras de quem nem o nome
lembramos ouvir

São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder
Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer

A chuva molhava-me o rosto
gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
já eu percorrera
Ai... o meu choro de moça perdida
gritava à cidade
Que o fogo do amor sob a chuva
há instantes morrera
A chuva ouviu e calou
o meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
trazendo a saudade

A chuva molhava-me o rosto
gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
já eu percorrera
Ai... o meu choro de moça perdida
gritava à cidade
Que o fogo do amor sob a chuva
há instantes morrera
A chuva ouviu e calou
o meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
trazendo a saudade

E eis que ela …
Alguém se lembra?

I'll now read the traditional opening message by society member Henry David Thoreau:

"I went to the woods because I wanted to live deliberately.
I wanted to live deep and suck out all the marrow of life.
To put to rout all that was not life,
and not, when I had come to die,
discover that I had not lived."

Carpe, carpe diem, seize the day boys, make your lives extraordinary.




Intocável

Choro.
Perdi-me de ti. Perdi-me do mundo. Perdi-me de mim.
Hoje as cores săo diferentes, a rua é diferente. Todo o mundo mudou.
Penso. Repenso. Medito.
Choro.
Sem lágrimas. Sem sal.
Choro.
Năo sei onde estou.
A vida é algo para além de mim. Para além de nós.
Intocável.