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O sítio onde as coisas acabam

Há dias em que não apetece. Estar no sítio onde as coisas acabam, digo. Estar onde não há. Estar onde há não. No sítio onde há fim. Onde há nada. Há putrefacção, morte, doença, vírus, vacinas. Ausência futura de coisas. Ausência passada de pessoas. Viagens sem retorno. O sítio onde as coisas acabam, enfim, é um sítio onde não apetece estar. Onde não apetece ser.
Visto de helicóptero (...) De qualquer mameira, de helicóptero, o desespero é mesmo tranquilo; o desespero e a tranquilidade parecem ser, aliás, a mesma coisa, quando vistos daqui. Gonçalo M. Tavares em Short Movies
Balanço Com quase 9 meses de atraso, fica aqui o balanço da minha lista de 101 coisas para fazer em 1001 dias... 101 Coisas para fazer em 1001 dias (fim de prazo a 21 de Abril de 2011) 1. Ir a Barcelona  (x2) 2. Visitar Oxford 3. Ter a minha casa (contigo) 4. Passar uns dias no Gerês 5. Passear com a Sofia 6. Levar a minha irmã ao Gerês 7. Levar a minha irmã a acampar 8. Andar de comboio com a minha irmã 9. Aprender uma língua nova 10. Comprar livros originais de autores de língua inglesa que gosto (3/3) 11. Ler García Marquez em castelhano 12. Escrever um conto para a Ficções 13. Concorrer a um concurso de literatura 14. Ler o resto da obra literária do García Marquez (4/10) 15. Ler o resto da obra literária do Lobo Antunes (3/17) 16. Ir ao teatro (7/20) 17. Ver concertos de música (8/10) 18. Ir à Festa da Alegria! 19. Voltar ao Avante! 20. Adoptar uma tartaruga na Costa Rica 21. Ajudar a minha irmã a escolher um curso na universidade 22. Fazer um tapete para a minha casa ...
Full-time Poeta das horas vagas? Um poeta verdadeiro use ou não use as palavras é poeta a tempo inteiro. Cláudio Lima, em Itinerâncias (Itinerarium IV)
Uma hipótese A alegria é um catalisador de uma experiência científica; a tristeza, um inibidor. A tristeza encolhe; como pode um homem triste descobrir algo? Só quem é alegre arrisca. A tristeza é anticientífica. Gonçalo M. Tavares em Breves Notas sobre Ciência  Desculpem-me a "inundação" Tavariana, mas este é, sem dúvida, um dos grandes escritores portugueses e este Breves Notas sobre Ciência é absolutamente delicioso e indispensável a quem procura investigar como forma de vida...
Breves notas sobre a ciência... Tédio e conclusões É o tédio. Ou então, o outro elemento. Jorge Luís Borges afirmou que só se considera um texto literário terminado e definitivo por duas ordens de razões: cansaço ou fé religiosa. Assim também nas experiências científicas. Gonçalo M. Tavares 
O medo Um homem que tinha muito medo de todos os animais que rastejavam, decidiu (por fim) ir viver para uma montanha muito alta. Gonçalo M. Tavares, em O Senhor Brecht
Poesia Apetece-me poesia. Trincar palavras. Inspirar exclamações. Libertar vírgulas e pontos finais. Apetecem-me reticências. Frases que não rimam. Metáforas inalcançáveis. Amores sofridos. Apetecem-me mentiras. Linhas faz-de-conta. Palavras sinónimas. Sonetos desengonçados. Apetece-me baloiçar. Letras espalhadas ao vento. Sentimentos que fingem que são. Querer ser verdadeiro. Apetece-me imaginar. Fugir do mundo. Cavalgar versos. Escrever quadras falsas. Forçar o sentir. Acreditar de novo. Que me apetece poesia.
Jardim Gatos. Gatos bonitos. Anafados. Pêlo brilhante. Olhos fixos. Cinza, preto, branco, malhado. E pássaros. Melros, piscos. Esventrados. Decapitados. Mortos. Sem penas. Sem pio. Bicos laranja numa mancha assimétrica de preto e vermelho. Um rato. Grande, cinzento, imundo. Jaz no alcatrão e funde-se já com ele. Como um desenho de linhas. Um contorno. Como algo que nunca foi. Como uma representação de nada. Uma coisa inexistente. Árvore. E árvores. Uma árvore só. Altiva. longe do chão. Afastada da vida. Dos animais. Das intenções. Das tentativas. Do mundo real. Uma árvore. Que vive de pé. Chuva de pétalas. Rosa e branco sobre o jardim. Rosa e branco sobre os gatos, os pássaros, o rato. Manto de branco e rosa. De beleza, de não-vida, de altivez, de distância, de magia, de encobrimento, de sonho. De vazio. De nada.
A minha rua A minha rua é feita de nada. Candeeiros escuros. Casas fantasma. Ar rarefeito. A minha rua é plena de vazio. Passeios desertos. Árvores ocas. Céu silencioso. A minha rua é debruada a morte. Frutos caídos. Cães inexistentes. Lixo putrefacto. A minha rua é imune à esperança. Quintais estéreis. Alcatrão latejante. Persianas corridas.
Adiamento Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã... Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, E assim será possível; mas hoje não... Não, hoje nada; hoje não posso. A persistência confusa da minha subjetividade objetiva, O sono da minha vida real, intercalado, O cansaço antecipado e infinito, Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico... Esta espécie de alma... Só depois de amanhã... Hoje quero preparar-me, Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte... Ele é que é decisivo. Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos... Amanhã é o dia dos planos. Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo; Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã... Tenho vontade de chorar, Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro... Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo. Só depois de amanhã... Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana. Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância... Depo...
E eis que... Este episódio, que deu origem à primeira definição de um até aí ignorado pecado original, nunca ficou bem explicado. Em primeiro lugar, mesmo a inteligência mais rudimentar não teria qualquer dificuldade em compreender que estar informado sempre será preferível a desconhecer, mormente em matérias tão delicadas como são estas do bem e do mal, nas quais qualquer um se arrisca, sem dar por isso, a uma condenação eterna num inferno que então ainda estava por inventar. José Saramago, Caim (pp. 14-15)
Mónica "Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da "Liga Internacional das Mulheres Inúteis", ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedade musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria. (...) De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade. (...) É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot...