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professores bobos (a hipótese da higiene) analfabetos leucocitos que fagocitam imaginam que o seu serviço salva quando envilece passam nos corredores das artérias que circundam ventrículos, coraçom e nem cumprimentam amuados os vírus que procuram está-lhes no cérebro bobos de baba ao canto da barba ou sem barba aprenderam no código genético consignas de sobrevivência e lucro bobos envenenando um corpo moribundo adormecem deliciados no gás que tudo anestesia os bobos som analfabetos especializados ao serviço do veneno que engorda mais bobos Carlos Quiroga
por vezes, excurso pela minha fé por vezes, excurso pela minha fé, deus obedece-me com dedicação, quando alimento os parasitas dos meus sonhos para sabotar a realidade acorro aos pássaros desligados ao vento não caio, entre os pássaros bichos irregulares valter hugo mãe
Dia do pai atrasado... Um dia do pai atrasado, nas palavras lindas da mãe... Ao meu pai... Queria falar-te por um só momento, mas há muito se esgotou o nosso tempo. Ainda no teu copo metade da vida por beber E já o fim…o completo escurecer! Não é muito o que tenho a dizer. Só queria poder contar-te do azul deste céu. Contar-te do mar, destes campos verdes, das montanhas, dos regatos, para tu saberes como aprendi a ver pelo teu olhar. Sabes, às vezes ainda peço às borboletas as asas emprestadas para poder ir contar os segredos às flores. (lembras?) Ainda sei o sabor das amoras dos silvados. E leio sem ninguém ver, histórias de príncipes encantados. Só não aprendi a coragem, a ousadia de ser eu, antes de todos os outros. Compreendo agora que não podias ensinar-me o que tu próprio não sabias. E essa tua, minha cobardia que às vezes tanto me dói, faz de ti, o que sempre foste: o meu Pai, o meu Herói… Lídia Borges
Hallelujah Se eu pudesse morar numa música, morava aqui... Now I've heard there was a secret chord That David played, and it pleased the Lord But you don't really care for music, do you? It goes like this The fourth, the fifth The minor fall, the major lift The baffled king composing Hallelujah Hallelujah, Hallelujah Hallelujah, Hallelujah Your faith was strong but you needed proof You saw her bathing on the roof Her beauty and the moonlight overthrew you She tied you To a kitchen chair She broke your throne, and she cut your hair And from your lips she drew the Hallelujah You say I took the name in vain I don't even know the name But if I did, well really, what's it to you? There's a blaze of light In every word It doesn't matter which you heard The holy or the broken Hallelujah Hallelujah, Hallelujah Hallelujah, Hallelujah I did my best, it wasn't much I couldn't feel, so I tried to touch I've told the truth, I didn...
Primavera Chegaste. Trazias no rosto Manhãs de Primavera, Nos olhos Brisas suaves, Nos dedos Raios de Sol! E eu, árvore só, Segurei-te as mãos (Ou foste tu a segurar as minhas?) E uma festa de seiva jorrou. Enchi-me de folhas verdes, De flores, De ninhos à espera… Quando acordei Era Inverno. Chovia! Não tinha chegado, ainda A Primavera! Lídia Borges Com certeza haverá, em breve, mais para saborear, aqui ...
E apetece-me ainda... Sonata de Outono Inverno não ainda mas Outono Na sonata que bate no meu peito Poeta distraído, cão sem dono Até na própria cama em que me deito Inverno não ainda mas Outono Na sonata que bate no meu peito Acordar é a forma de ter sonho O presente o pretérito imperfeito Mesmo eu de mim próprio me abandono Se o rigor que me devo não respeito Acordar é a forma de ter sonho O presente o pretérito imperfeito Morro de pé Mas morro devagar A vida é afinal o meu lugar E só acaba quando eu quiser Não me deixo ficar Não pode ser Peço meças ao Sol, ao céu, ao mar Pois viver é também acontecer A vida é afinal o meu lugar E só acaba quando eu quiser José Carlos Ary Dos Santos
E apetece-me... Tourada Não importa sol ou sombra camarotes ou barreiras toureamos ombro a ombro as feras. Ninguém nos leva ao engano toureamos mano a mano só nos podem causar dano de esperas. Entram guizos chocas e capotes e mantilhas pretas entram espadas chifres e derrotes e alguns poetas entram bravos cravos e dichotes porque tudo o mais são tretas. Entram vacas depois dos forcados que não pegam nada. Soam brados e olés dos nabos que não pagam nada e só ficam os peões de brega cuja profissão não pega. Com bandarilhas de esperança afugentamos a fera estamos na praça da Primavera. Nós vamos pegar o mundo pelos cornos da desgraça e fazermos da tristeza graça. Entram velhas doidas e turistas entram excursões entram benefícios e cronistas entram aldrabões entram marialvas e coristas entram galifões de crista. Entram cavaleiros à garupa do seu heroísmo entra aquela música maluca do passodoblismo entra a aficionada e a caduca mais o snobismo e cismo... Entram empresários moralistas entram...
Apetece-me... Desfolhada Corpo de linho Lábios de mosto Meu corpo lindo Meu fogo posto. Eira de milho Luar de agosto Quem faz um filho Fá-lo por gosto. É milho-rei Milho vermelho Cravo de carne Bago de amor Filho de um rei Que sendo velho Volta a nascer Quando há calor. Minha palavra dita à luz do sol nascente Meu madrigal de madrugada Amor amor amor amor amor presente Em cada espiga desfolhada. Minha raiz de pinho verde Meu céu azul tocando a serra Oh minha água e minha sede Oh mar ao sul da minha terra. É trigo loiro É além Tejo O meu país Neste momento O sol o queima O vento o beija Seara louca em movimento. Minha palavra dita à luz do sol nascente Meu madrigal de madrugada Amor amor amor amor amor presente Em cada espiga desfolhada. Olhos de amêndoa Cisterna escura Onde se alpendra A desventura. Moira escondida Moira encantada Lenda perdida Lenda encontrada. Oh minha terra Minha aventura Casca de noz Desamparada. Oh minha terra Minha lonjura Por mim perdida Por mim achada. Ary dos ...
Sinais Houve um tempo que não encontro. Que não mudo. Perdi as vírgulas que ligavam os pensamentos, os travessões que o interrompiam, os pontos que lhe davam rumo. Havia um caminho claro na pontuação que me pertencia. Nos sinais. Agora há apenas letras soltas, que tenho perdidas. Por vezes frases errantes (erradas?). Enganadas. Que se esfumam à luz do dia.  Há ainda palavras inteiras, bonitas... Que não cabem na frase. No pensamento. Como promessas. De novo as promessas. Do que serei.  Não.  Do que seria. Se fosse capaz de reaprender a pontuação que doma as letras, seria capaz de mudar o tempo. Do verbo.
Adiamento Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã... Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, E assim será possível; mas hoje não... Não, hoje nada; hoje não posso. A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,  O sono da minha vida real, intercalado,  O cansaço antecipado e infinito, Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico... Esta espécie de alma... Só depois de amanhã... Hoje quero preparar-me, Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte... Ele é que é decisivo. Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos... Amanhã é o dia dos planos. Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo; Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã... Tenho vontade de chorar, Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro... Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo. Só depois de amanhã... Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana. Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância... Depo...
Cântico Negro "Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali... A minha glória é esta: Criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre à minha mãe Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos... Se ao que busco saber nenhum de vós responde Por que me repetis: "vem por aqui!"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí... Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada. Como, pois, sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?... Corre, nas vossas veia...
Alma (...)  e a gente a acreditar embora saibamos que não é possível, nunca foi possível e no entanto a recebermos a alma que o padre nos distribuiu a garantir que nossa  - Toma a tua alma minha filha (ponhamos que filha) e a gente não com ela num cabaz visto que a alma no Céu e portanto não nossa (mal ma distribuiu roubou-ma fazendo-a erguer-se onde não a logro alcançar e não a logrando alcançar pertence ao padre ou a Deus não a mim o que me pertence são os garfos de que me sirvo e as galinhas que como, verdadeiras e portanto sem alma, não me engane senhor e o padre com dó da minha ignorância seguro do divino Amor e da divina Bondade (...) António Lobo Antunes, O meu nome é Legião , pág.297
O fado não é mau Ai tristeza eu jurei por nunca mais cantar o fado Foi por amor que o calei por amor ao meu namorado O fado é mau corrompe a alma com demónios, manjericos, Santo Antónios amores vagos e episódios de faca e alguidar ainda para mais é um negócio de direita que esta malta aproveita para se vangloriar fica sentada no teu cantinho!" - diz-me assim, com carinho, meu amor, para não cantar Meu amor, mas o destino não se roga e fez ouvidos moucos, ao que eu fiz jurar, Aqui me tens a confessar: f oi apenas o destino que é cruel e pequenino e nos quis vir separar... Ai tristeza, podem ver quebrada aqui já a promessa e esta voz canta a doer sem fado nem amor, que resta? O fado não é mau não é um crime ou um defeito é um emaranhado de cordões que nos entrelaça o peito e precisa de ser solto corre o risco de sufoco quem prende o fado na voz e anda ali com aqueles nós a apertarem na garganta é mais rico aquele que o canta, pobre, quem lhe dá prisões Tu e eu não somos dois meu amo...
Gatos... a impressão que um gato e gato algum, o encolher das sombras que é a mesma coisa visto que nunca entendi se os gatos existem ou não passam de condensações do escuro a detalharem-nos numa curiosidade preguiçosa (...) António Lobo Antunes em O meu nome é Legião, pág.263
Investigar literatura II "(...) A cor não me soube a cor. Os meus olhos sentiram-na, não vendo-a , mas tacteando-a . Sim, a sensação que essa cor que eu vira me transmitiu ao cérebro foi uma sensação de tacto - olhá-la, era como se tacteássemos qualquer coisa viscosa." Mário de Sá Carneiro, em A estranha morte do professor Antena
Viagem pelo universo Hoje vou pegar no carro e vou até à rua das estrelas, onde  a minha irmã vai estar à minha espera, de malas e bagagens.  Depois trago-a para a supernova que é a nossa casa, na cidade da chuva.